
Olha só um fato interessante : o ser humano, com todo o desenvolvimento tecnológico e científico ao longo da sua história, só conhece pouco mais de 1% dos oceanos. Isso mesmo : impressionantes 99% dos oceanos são um completo mistério. Nós nos sentimos tão confortáveis dentro do mundinho que conhecemos que às vezes é difícil de perceber o quanto há ainda a ser explorado. Explorar dá preguiça, explorar exige esforço. Nós gostamos do que nos vem fácil. Por que sair procurando músicas novas por aí quando vem tudo mastigadinho no rádio e nas baladas ? Eu respondo : porque ao fazer isso só estamos explorando a tênue superfície de toda uma infinidade de músicas e bandas por aí. A ponta do iceberg. E pode acreditar : existe muita coisa boa nos 99% que temos preguiça de conhecer.
Não parece surpreendente que uma banda independente e com quase nenhuma atenção da mídia como o The Walkmen permaneça nesses 99% desconhecidos. É difícil imaginá-los em outdoors, mas não é por isso que eles devem ser ignorados. Essa é uma banda com uma belíssima trajetória de mais de uma década. Sem contar que nos últimos 6 anos, com o lançamento dos 3 álbuns mais recentes, eles vêm sendo irretocáveis. E é com muita satisfação que se verifica que com Heaven, seu 6º álbum, o The Walkmen não dá o menor sinal de cansaço ou decadência. Muito pelo contrário.
Essa é uma conhecida pela suas habilidades com a guitarra. Não só seus integrantes possuem uma habilidade nata com o instrumento,mas eles criam poderosos e inovadores riffs acústicos. Tudo soa clássico e elagante, e não clássico no sentido de rock clássico cansativo e tiozão, mas clássico no sentido de bem estruturado e bem pensado. Heaven é um álbum marcadamente baseado na guitarra acústica, lembrando o You & Me em sua forma. E como a guitarra é bem explorada no Heaven… o instrumento é tratado com uma enorme afinidade, tendo todas as suas nuances exploradas. O riff de abertura de The Witch, por exemplo, soa definitivamente como um ambiente de feiticaria e tudo o que a banda precisa é de 20segundos para construir esse ambiente.
Imagem completamente conjura We Can’t Be Beat, a música de abertura tocada numa guitarra acústica muito similar a um violão. Essa música é quase uma marcha, mas é lenta e bonita demais para isso. We Can’t Be Beat tem o poder de levantar a moral do ouvinte com o seu refrão em suave crescendo com “oOoOohs” e “we’ll never leave – we can’t be beat” e com linhas como “give me a life that needs correction. Nobody loves-loves perfection”. Mais acústica ainda é Southern Heart , no estilo voz e violão e na qual o vocalista Hamilton Leithauser mostra os seus variados tons de voz grave.
Mas esse é um álbum que, acima de qualquer outra coisa, fala sobre amor. A banda está apaixonada, o que não é surpresa, vistoque a maioria dos seus membros já constituiriam famílias. Aliás, o filho de Leithauser aparece nas fotos da promo do álbum com a banda. E essa temática do amor atinge o seu ápice no refrão de Song For Leigh, no qual se canta “and I’ll sing myself sick, I’ll sing myself sick, I’ll sing myself sick about you”. É quase exageradamente bonitinho. Os relacionamentos amorosos também são abordados em uma perspectiva mais cética, como numa música chamada Love Is Luck que fala exatamente sobre o que o título propõe. Leithauser sabe que o amor é sorte, mas isso não é motivo para ele não celebrar o amor que conquistou.
Mas a melhor música de Heaven é Heartbreaker, que também tem a letra mais interessante. Nela o vocal ilustra o quanto conhece a mulher que ama “I know the reason you exagerate”, “I know the answers to all of your demands” ao mesmo tempo que procura hedonisticamente aproveitar todo o tempo possível com ela “these are the good years-ah, the best we’ll ever know. these golden light years”. A música culmina num refrão que repete diversas vezes “I’m not your heartbreaker, some tender ballad player”. O jeito que a linha é cantada parece um homem assumindo que nunca teve vocação para partir o coração de ninguém, que genuinamente passa longe da imagem de quem usa mulheres de uma forma descartável. É outra perspectiva do universo masculino.
E Heaven é um belo exemplo do que constitui o The Walkmen. O álbum, assim como a banda, é extremamente masculino, mas não masculino sob uma ótica machista, sexista e cheia de testosterona. É uma banda que consegue instrumentalizar a frustração e as dores do universo masculino, sendo frequentemente intenso, frequentemente explosivo e frequentemente choroso. Quase sempre fantástico e sempre com uma sensibilidade ímpar.
Falta no álbum, contudo, um fundamental constituínte do The Walkmen (e do universo masculino) : a bateria. Essa é uma banda que possui uma força sobrenatural na bateria e tal instrumento concede às músicas uma gigantesca intensidade dramática. A bateria em Heaven ficou em segundo o plano, o que deixa o álbum menos intenso do que poderia. Heaven é um álbum mais bonito do que dramático e o The Walkmen funciona melhor no sendo mais dramático.
Mas isso não impede que Heaven seja o que é : uma pérola. Explorar as possibilidades da guitarra acústica (sem esgotá-las) ao mesmo tempo que se fala sobre amor é algo maravilhoso de se ouvir. E, principalmente, é maravilhoso ouvir uma das mais talentosas bandas da atualidade lançar outro excelente álbum. Há tanta beleza no inexplorado, tanta magia no desconhecido e tanta coisa que sequer sabemos. É hora de olhar para os 99% com simpatia pois as pérolas estão lá no fundo.

The Walkmen - Heaven - 8.5 out of 10.0